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  • Ana Zacharias

a mamãe...


é estranho começar pelo fim, mas todo o fim também é um começo...


Era uma tarde de sol, parecia mais um domingo qualquer, mas esse seria o domingo que tudo mudou. Tinha tanta gente, pessoas cantando, contando histórias e, entre abraços, ora rindo, ora chorando foi o momento de dizer adeus.... o curioso é que quando soube que ela seria velada durante 24 horas me pareceu uma eternidade, me deu uma sensação de será que precisa? Mas as horas foram passando até chegar naquele momento. a gente fica achando que tem tempo e, de repente, o tempo acaba. Aquelas horas que eu soube e, pela primeira vez na vida meus joelhos amolecerem de verdade as horas foram passando, as histórias surgindo, conversávamos entre sussurros de adeus e sorrisos repetindo coisas que a mamãe falava... O papai permanecia ao lado dela, falando baixo, rezando ou simplesmente contemplando com um adeus silencioso. Ele permaneceu com a sua dignidade inabalável ao lado daquela que foi sua esposa durante quase 50 anos. Estes dias mudariam a minha vida para sempre e nós todos, os irmãos e irmãs, filhos do papai e da mamãe, sofremos o luto cada um a seu modo, mas naquelas horas velando a mamãe estivemos juntos. Muitas pessoas chegavam e contavam histórias sobre o que ela havia feito por eles, ou algo que aconteceu que ela estava presente. Para os outros (os de fora como ela mesmo dizia) ela foi ou catequista, ou membro da comunidade, ela foi amiga e irmã. Mas para mim ela era ‘a mamãe’ e assim ficou sendo.

Durante muitos anos depois da sua morte não consegui lidar com a sua partida. Como se fosse algo que ela tinha feito para mim, ela havia me abandonado. Foi uma jornada, um mergulho na piscina profunda e escura de todas as memórias, sensações, emoções e sentimentos até sair do outro lado e compreender que a morte dela era sobre a vida dela. Depois de tantos anos fica a gratidão por ter sido parte da sua vida.

Desde que a minha memória lembra a mamãe esteve presente. Ela me ensinou a ter fé e a escutar, tinha um jeito especial de conhecer as pessoas. Ela contava as histórias quando ela ainda era criança e o quanto amava estar com o pai dela, ela contava histórias de quando trabalhou e como conheceu o papai, ela sentava no chão pra brincar quando éramos crianças, fazia roupa pra gente na velha máquina ‘singer’. Com o pretexto de catar nossos piolhos, sempre havia um cafuné, e ela tinha um super poder de beliscar com os dedos dos pés. Ela cozinhava tudo que era de soja, de verdura e coisas saudáveis, ela lavava nossa roupa com o cuidado de durar pelo menos por três filhos... Ela dava bons conselhos, fazia água com açúcar para corações partidos e, quando brigava dizia que a gente ía ver só quando ela morresse... é... a gente viu mãe, a gente vê.

Ela foi daquelas pessoas incrivelmente comuns, que sua presença era uma certeza e sua ausência causa um buraco que nunca é tapado. Ela sentia uma fé inabalável e uma esperança no futuro. Era de poucas palavras e muitas e boas conversas. Quando ria seus olhos castanhos se iluminavam e ria com seu jeito envergonhado tapando um pouco a boca. Tinha frases de efeito que continuamos repetindo mesmo após anos do seu falecimento. Ela é viva, presente, em um jeito de colocar a mão na cintura, ou no formato das unhas das minhas irmãs. Alguns dizem que faço lembrar ela (o que me deixa vaidosa, apesar de achar que não) na feição, mas o que tento copiar é muito mais o seu ‘jeito’, a sua paciência, o seu silencio e o seu amor pelos outros. Enquanto conto tudo isso um filme passa na minha cabeça, um filme que começou muito antes de mim já que, quando nasci ela tinha 40 anos de idade 7 filhos e filhas vivos, e um casamento que tinha começado 16 anos antes. Mas isso é para outra história...

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