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  • Ana Zacharias

CEIÇÃO, era da LUZ...


Conceição dos Prazeres da Luz era o nome dela. Conheci Conceição no ônibus que pegávamos no fim de tarde. Quando o sol batia em seu rosto parecia que dali saíam fachos de luz. Seu sorriso era daqueles abertos e que parecia que tinha o dobro de dentes porque Ceição (era o apelido dela) era um a pessoa que ria. Não só ria, ela gargalhava em uma deliciosa e sonora risada cheia de vida e vigor.




Mas Ceição era mais que riso, ela era ‘da Luz’ para honrar o seu sobrenome. Certo dia me contou que acordava as 4:30 todos os dias porque gostava de deixar tudo pronto antes de sair... ‘É mania’, confidenciava com uma piscadela. Dizia que limpava, cozinhava e lavava para que às 6 pudesse sair para trabalhar tranquila.


Ceição falava dos 4 filhos com tanto orgulho e só se referia a eles como ‘as crianças’ só muito tempo depois soube se tratar de jovens adultos que estudavam e trabalhavam. O marido, seu companheiro de vida era o seu José da Luz. Ceição o definia como um ótimo pedreiro, um inventador de coisas, um sonhador. Ela dizia que ‘alguém na vida precisava sonhar’ e isso não era com ela. - Não consigo, dizia, é que gosto de viver acordada! - Mas falava daquele marido com tanto amor e respeito que eu mesma tinha simpatia por aquele homem que nunca cheguei a conhecer.


Ela tinha mais de 30 afilhados porque as vizinhas diziam que tinha boa mão para amadrinhar, afinal sua mãe tinha sido parteira e tinha trazido muitos e muitos bebês ao mundo e isso dava a ela o compromisso de gostar de crianças, era coisa de família, confidenciava ela. Contava que sua casa vivia cheia de crianças aos fins de semana e que as risadas e a gritaria enchiam o lar de alegria nas tardes de domingo. Uma algazarra, dizia ela, colocando as mãos na cabeça, mas com um orgulho nos olhos que enchia meu coração de amor!


Um dia, durante aquelas conversas de ônibus, perguntei a Ceição se ela nunca tinha pensado em ser alguém importante e famosa. Seu olhar de espanto me marcou de maneira tão profunda que o tempo pareceu parar... Me disse que ela sempre foi importante e sempre foi famosa, mas só para quem a conhecia. Foi uma criança famosa na sua rua por ser arteira e boa filha, uma jovem famosa na escola por ser engraçada e estudiosa, uma mulher famosa entre os vizinhos por estar sempre cuidando dos filhos, ter uma casa limpa e ter roupas lavadas e, por fim, era ainda muito famosa por ser alguém com quem todos podiam contar.


Não sei por que nessa tarde chuvosa lembrei de Ceição que há tantos anos não vejo, que não tenho sequer uma foto, mas que mora pra sempre nos meus pensamentos e nos ensinamentos que tive na vida.

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