• Ana Zacharias

na casa dos zacharias tinha...



Aos sábados o ritual das tarefas era sempre acompanhado da trilha sonora da antiga FM 104 naquela casa onde moravam muitos e, enquanto o dia avançava, se limpava a casa, se amassava pão e ainda matavam a galinha para o almoço do domingo.



Na velha casa de madeira o sábado era de alvoroço desde cedo. As tarefas iam acontecendo em meio a conversa, risadas e alguns desentendimentos comuns naquela família numerosa de 8 filhos de várias idades.


Uma das tarefas era limpar a casa, lavar o banheiro e 'deixar um brinco', esfregar o assoalho de madeira com palha de aço passada com os pés, depois com escovão, então se varria, limpava com querosene e, já quase sem poeira, se encerava com ‘cera canário’ amarela que ainda hoje é vendida nos supermercados e, se a encontro abro só para sentir aquele maravilho cheiro de casa limpa de infância. No chão encerado eram, por fim, distribuídas folhas de jornais para evitar que pisássemos e deixássemos nossas pequenas pegadas o que fatalmente virava uma brincadeira e ficávamos pulando pelas folhas de jornal sendo ‘proibidos’ cair delas.


Amassar o pão que seria consumido na próxima semana era outra das tarefas de sábado e os incumbidos dela tinham o trabalho de transformar 5 kg de farinha de trigo em 10 fabulosos e deliciosos pães de forma. Eles eram assados no forno que tínhamos no quintal que era previamente recheado de galhos cuidadosamente queimados para chegar a temperatura que assasse todos aqueles pães além de um delicioso bolo colocado na ‘forma octogonal’ que deixava o bolo, além de delicioso, lindamente corado em um formato todo diferente. Tudo isso seria consumido em dias pelas crianças, adolescentes e jovens adultos famintos e barulhentos que éramos.


Durante o sábado enquanto alguns limpavam a casa, outros faziam o pão, tinha ainda aqueles que matavam, depenavam e esquartejavam as galinhas que seriam servidas no almoço do dia seguinte. Mais que um ritual de morte era uma aula de culinária e biologia aviária onde não havia espaço para o medo, o pudor ou nojo. Naquela época nos parecia natural o estrangulamento do bicho penoso que ficava de cabeça para baixo para concentrar o sangue nos miolos o que, para alguns, era uma iguaria esperada. O bicho jazia sem vida e era escaldado, sapecado em chamas pelos adultos e os pequenos ajudavam a tirar as penugens com mãozinhas minúsculas como pequenas pinças que conseguiam sacar até as menores peninhas queimadas. Quando eram galinhas que tinham ovinhos ficávamos ainda mais felizes, porque era como se o bicho estivesse premiado como ter um ‘kinder ovo’ ao contrário já que o ovo vinha de brinde dentro do bichano.


Na casa de número número 20 do DNER, lugar que era chamado por nós carinhosamente de beco por ser uma rua sem saída, aconteciam teatros de sombras quando a luz acabava, cantorias infinitas quando o violão chegava e muitas conversas em cochichos em pequenos grupos de afinidade. Havia novena de Natal, terço quando a capelinha visitava e muita fé professada em oração e palavras. Havia fogão a lenha para esquentar os frios invernos do sul que serviam para fazer deliciosos quitutes juninos. Havia cumplicidade dos pais, barulho das crianças, havia sonho sendo construídos em forma de lições de casa e cadernos cuidadosamente encapados com papel tigre. Tinha roupas lavadas no tanquinho ‘müller’ e adesivos colados nos vidros que contavam histórias de aventuras. Tinha discos coloridos de histórias infantis tocados a exaustão e músicas cantadas como hinos por todos. A música era uma constante e cantávamos a plenos pulmões o Iê-Iê-Iê, a MPB e as músicas de festivais. Havia dramas e corações partidos de adolescentes e jovens, também havia histórias de dormir contadas aos pequenos. Muitas brincadeiras de pular taboa que rendiam ossos quebrados e muito frio na barriga, amarelinha, esconde-esconde, as cinco marias, estátua. Todos entravam no fim de tarde após a luz de mercúrio nos deixar com ar fantasmagórico atendendo ao chamado da mamãe.


E, aos sábados, havia uma linha de produção onde os mais velhos trabalhavam e as crianças eram entretidas em brincadeiras de fazer pão, de tirar as penugens de galinha morta ou ainda se sentar no escovão para fazer peso para limpar o chão. Tinha um trabalho para cada um, de acordo com sua idade, meninos e meninas faziam seus trabalhos, aprendiam juntos. Tinha música, muita música, barulho, sempre alguma briga e riso, muito riso. Tinha a mamãe falando, o papai silencioso e trabalhando e, no fim do dia, tinha cheiro de casa limpa, de pão fresco, comida que iria ser preparada no domingo. Já quando a noite avançava tinha silencio de adultos, jovens e crianças cansados, felizes e realizados por mais um dia, por mais uma etapa cumprida e juntos na esperança de uma nova semana que em breve surgiria.

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