• Ana Zacharias

O menino que roubava frutas


Havia um pomar próximo a nossa casa onde víamos por entre as frestas da cerca as frutas mais lindas e que pareciam ser as mais saborosas de todas.

Aquele pomar, embora lindo e saboroso, sofria de um pequeno defeito de estar sempre trancado. Os passarinhos em sua algazarra animal pareciam rir da gente porque, com suas asinhas, voavam direto para se deleitar de todas aquelas delícias em forma de frutas.


O pomar era cercado com uma cerca alta e em seu portão havia um enorme cadeado. Tudo isso para uma criança comum era o que impedia e determinava que havia um mundo dentro daquele lugar que não nos pertencia, mas isso era só para as pessoas comuns e nunca para aquele menino.


Mas o que ele tinha de tão diferente? Pelo que lembro ele era daqueles meninos que as velhinhas adoravam. Carregava aqueles enormes olhos brilhantes e um sorriso aberto que parecia acolher o dobro de dentes que os outros tinham. Ele falava com um jeito simples e leve e, sabe aquele jeito labioso junto com um riso frouxo para contar histórias? Aquele menino carregava estas virtudes que encantava quem o escutasse e hoje ainda tem isso na essência que o faz conhecer todo o tipo de gente por onde passa.


A dona do pomar era um pouco rabugenta e com cara de poucos amigos, mas não era imune aos encantos do menino e ele, parecia não fazer com maldade ou para obter vantagem, conversava com ela como velhos amigos.


Anos mais tarde entre risos e olhares que ainda fazem lembrar aquele rapazola magrelo conta que às vezes nem queria roubar as frutas, mas a vontade de comer era grande, o dinheiro era curto e os irmãos eram muitos, então ele pulava o enorme portão para se deliciar naquele oásis. Fazendo justiça com a própria história ele deixa claro que não pegava só para ele, pensava em tantos que se alegrariam com os seus feitos e o quão pouco representava em um pomar inteiro as poucas frutas que levava. Enquanto ele relata parece claro que, em sua cabeça, ele se tem como uma mistura de papai noel e Robin Hood - o que tendemos a concordar - já que chegava com laranjas nos bolsos e mimosas numa trouxa de camiseta rindo, fazendo muita folia e criando uma algazarra daquelas em meio a criançada.


Ainda com o olhar perdido na infância ele que agora já é avô conta que nem todos os dias eram de sucesso. De um jeito solene (mas é só para fazer tipo) conta que aprendeu que tirar 20 em comportamento não era o dobro da nota máxima, afinal chegou em casa tão envaidecido de si mesmo e estava resolvido que seria santo quando crescesse, não fosse o fato de descobrir que suas malandragens não passavam desapercebidas das vistas da professora que foi implacável com o seu comportamento contando para a mamãe que a escutava apenas assentindo com a cabeça.


Suas artes lhe rendem boas histórias como o dia que, de calça nova porque iria ler um texto na igreja, parou para conversar com um dos seus tantos amigos. Mas para ele conversar não era suficiente, ele precisava jogar e assim conseguiu um rasgo enorme naquela calça novinha. Voltou correndo para casa com os seus grandes olhos ainda maiores do susto imaginando o pior (uma surra certa, a vergonha de não aparecer na igreja – aquele destino infeliz já traçado), mas a mamãe se sentou na máquina de costura e, como ela mesma dizia, ‘num zaiz traiz’ fez um conserto dando a ele tempo para cumprir seu compromisso sagrado.


Quem o conhece desde a infância ainda encontra nesse senhor aquele menino que roubava frutas, que fazia malcriações, que rasgava a calça, que perdia o sapato na privada... Quando olhamos em seus olhos que continuam brilhantes, quando escutamos sua cantoria com voz de trovão ou quando sua voz falha ao se emocionar por lembrar da sua mãezinha querida que já não está entre nós o menino que roubava frutas surge enchendo nosso coração de afeto.

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